O câncer de pâncreas é um dos mais difíceis de tratar. Quando já está em fase metastática — ou seja, quando se espalhou para outros órgãos — as opções são poucas e os resultados, historicamente, muito limitados. Por isso, os dados apresentados nesta semana chamaram a atenção da comunidade médica internacional.
Um estudo de fase 3 chamado RASolute 302 — a etapa mais avançada de testes clínicos antes da aprovação de um medicamento — comparou o uso diário da pílula experimental daraxonrasib (também conhecida como RMC-6236) com a quimioterapia padrão em pacientes com câncer de pâncreas metastático que já haviam recebido tratamento anterior.
O resultado foi expressivo: os pacientes que receberam daraxonrasib tiveram sobrevida mediana de 13,2 meses, contra 6,7 meses no grupo tratado com quimioterapia. Na prática, o medicamento praticamente dobrou o tempo mediano de sobrevida nesses pacientes.
Por que esse resultado é relevante?
O daraxonrasib atua bloqueando uma proteína mutada da família RAS, ligada ao crescimento tumoral. Essa mutação está presente em mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas — e por muito tempo foi considerada um alvo extremamente difícil de atingir com medicamentos.
Segundo a ASCO (Sociedade Americana de Oncologia Clínica, principal entidade da área no mundo), que apresentou os dados em seu congresso anual de 2026, o medicamento também melhorou a sobrevida livre de progressão da doença, aumentou a taxa de resposta ao tratamento e apresentou um perfil de efeitos colaterais considerado manejável.
O Dana-Farber Cancer Institute (centro de pesquisa oncológica de referência nos Estados Unidos) descreveu o daraxonrasib como o primeiro inibidor oral multi-seletivo de RAS(ON) — um tipo específico de bloqueador molecular — testado em ensaios clínicos para câncer de pâncreas.
O que ainda falta saber
Os pesquisadores ressaltam que o medicamento ainda é experimental e não está aprovado para uso geral. O estudo foi realizado com pacientes em estágio avançado e já tratados anteriormente, o que limita a generalização dos resultados. Questões como resistência ao tratamento ao longo do tempo, duração do benefício e possíveis combinações com outras terapias ainda precisam ser investigadas.
O artigo completo foi publicado no New England Journal of Medicine (NEJM), a revista médica mais respeitada do mundo, com o título "Daraxonrasib or Chemotherapy in Previously Treated Metastatic Pancreatic Cancer".