Em um tempo em que se compra tudo com um clique, as livrarias físicas não só sobreviveram como estão ganhando um novo fôlego nos Estados Unidos — especialmente aquelas abertas e mantidas pelos próprios escritores. De Nova York ao Novo México, autores famosos estão transformando seu amor pelos livros em espaços culturais que viram ponto de encontro das comunidades locais.

A história começa em 2011, quando a escritora Ann Patchett abriu a Parnassus Books em Nashville, no Tennessee, depois que duas grandes livrarias da cidade fecharam as portas. Na época, parecia um ato de resistência quase impossível diante do crescimento da Amazon. Hoje, a Parnassus é uma das livrarias independentes mais reconhecidas do país — e Patchett se tornou uma das vozes mais ativas na defesa da leitura e dos autores independentes.

Mas ela não está sozinha.

Quem são os autores que viraram livreiros?

Judy Blume, autora de clássicos da literatura jovem adulta como "Querido Deus, Sou Eu, a Margaret", co-fundou a Books & Books em Key West, na Flórida, em 2016. Não é raro encontrá-la pessoalmente atendendo clientes no caixa ou ajudando leitores a escolher um livro.

Louise Erdrich, escritora americana de origem indígena Ojibwe, fundou a Birchbark Books & Native Arts em Minneapolis, em Minnesota, em 2001. A livraria é especializada em literatura indígena e funciona como um espaço de memória e identidade cultural para comunidades originárias.

Jeff Kinney, criador da série "Diário de um Banana" (best-seller mundial), foi além: construiu do zero um prédio de três andares em Plainville, Massachusetts, que abriga não só a livraria An Unlikely Story, mas também um café e um espaço para eventos. Kinney planeja ainda adicionar um restaurante e um parque ao redor.

George R.R. Martin, autor da saga "As Crônicas de Gelo e Fogo" (que deu origem à série "Game of Thrones"), abriu a Beastly Books em Santa Fé, no Novo México, em 2019. O espaço é especializado em ficção científica e fantasia, e também abriga livros raros e obras banidas de escolas.

Lauren Groff, autora indicada ao National Book Award (um dos prêmios literários mais importantes dos EUA), abriu a The Lynx em Gainesville, na Flórida, em 2024, com uma missão clara: oferecer acesso a livros proibidos em escolas e bibliotecas do estado. "Queremos mostrar que a Flórida não é um lugar intolerante. É um estado cheio de pessoas boas que defendem a liberdade de expressão", disse Groff.

Emma Straub abriu a Books Are Magic em 2017, no bairro do Brooklyn, em Nova York, depois que a livraria onde ela mesma trabalhava fechou. O espaço, com suas murais cor-de-rosa na fachada, virou um fenômeno local — e hoje tem duas unidades no bairro.

Por que isso importa?

Essas livrarias não são apenas pontos de venda. Elas funcionam como centros culturais vivos: promovem eventos com autores, defendem a diversidade literária, apoiam escritores locais e criam um senso de pertencimento que nenhum algoritmo consegue reproduzir. Em muitos casos, nascem justamente onde havia um vazio cultural — e provam que, quando há amor pela leitura, há espaço para o livro físico prosperar.