Severino Nascimento da Silva nunca conheceu o pai nem a mãe. Começou a trabalhar com seis anos de idade. Cresceu sem ter a chance de ir à escola. Casou, criou sete filhos e chegou à velhice carregando um sonho adiado por quase nove décadas.
Na última terça-feira (26), aos 95 anos, ele finalmente se formou.
Seu Severino está entre os mil estudantes que participaram da cerimônia de formatura do Programa Alfabetiza Piauí, realizada em Teresina. A iniciativa da Seduc-PI (Secretaria de Estado da Educação do Piauí) é voltada à alfabetização de jovens, adultos e idosos que não tiveram acesso à escola na época certa.
"Comecei a trabalhar com seis anos de idade e, desde então, venho lutando nessa vida. Eu queria ir à escola, mas sempre que alguém me matriculava, não me davam chance de estudar. Cresci, cheguei à idade de casar e não tive condições de educar meus filhos direito", relembrou.
Mesmo assim, ele nunca perdeu a vontade de aprender. "Sempre fui muito apaixonado por aprender. Nessa idade que eu estou agora, sigo acreditando que a educação está acima de tudo", afirmou.
A emoção da noite foi visível. "Voltar à escola me deixou muito satisfeito. Nunca imaginei viver uma formatura nessa idade. Me sinto com muita vontade de continuar estudando. Amo minhas professoras, meus colegas e sou muito agradecido por essa oportunidade."
Não foi só ele
A história de seu Severino é a mais emblemática, mas a formatura reuniu outras histórias igualmente tocantes.
O casal Ocimar Mendes (50 anos) e Eliane Barreto (45), moradores de Elesbão Veloso, voltaram à escola juntos. Eliane atravessava um processo depressivo e encontrou nos estudos uma forma de reorganizar a vida. Ocimar foi junto.
"Voltar ao colégio foi uma decisão que me deixou muito feliz. Me deu uma nova luz na vida", contou Eliane.
Já dona Francisca da Conceição, aos 70 anos, voltou a estudar incentivada por uma amiga — e levou consigo a filha Leda (42) e o neto Rafael (29). Três gerações da mesma família na mesma turma.
"Todo tempo é tempo para a gente estudar", disse dona Francisca.
Rafael, que sonha em ser engenheiro, viu na volta à escola uma chance de retomar esse projeto. "Ter a parceria da minha avó e da minha mãe fez toda a diferença."
O programa
Em dois anos, o Alfabetiza Piauí alfabetizou cerca de 50 mil piauienses. Para garantir a permanência dos alunos, o programa oferece transporte, alimentação e incentivo financeiro durante o período de estudos.